*Da Redação*
As máquinas agrícolas iniciam operações em ritmo acelerado nas terras indígenas mato-grossenses. Os povos Haliti-Paresi, Nambikwara e Manoki conquistaram a primeira licença ambiental do Ibama para plantio mecanizado em aldeias. A autorização será publicada no Diário Oficial da União este ano, marcando reconhecimento inédito no Brasil.
Soja em grande escala nas terras indígenas
A Cooperativa Agropecuária dos Povos Indígenas Haliti-Paresi, Nambikwara e Manoki pretende cultivar soja em aproximadamente 80% dos 19,7 mil hectares disponíveis. Arnaldo Zunizakae, presidente da Coopihanama, reafirma a importância do plantio para sustentação econômica comunitária.
“Nós vamos plantar em torno de 75 a 80% da nossa área, um pouco de cautela porque a chuva está bem irregular. É necessário plantar soja, não tem como abrir mão dessa cultura. A preocupação mesmo é a segunda safra, porque se atrasar o plantio, compromete a colheita seguinte. Então é ter fé em Deus e trabalhar duro aqui”, pontua Zunizakae ao Canal Rural Mato Grosso.
Sustentabilidade e práticas regenerativas
O agricultor Ronaldo Zokezomaike reforça o compromisso ambiental das operações indígenas. O investimento em correção de solo e palhadas demonstra preocupação com métodos regenerativos. “A gente fez uma correção muito grande no calcário, investimos nas palhadas também. Nós já começamos a trabalhar essa parte da agricultura regenerativa para mostrar para o mundo que é possível a gente produzir consolidando tudo aí, a questão ambiental de forma correta”, explica Zokezomaike.
Autonomia e gestão própria dentro das aldeias
As 13 fazendas da cooperativa agora funcionam com gestão, financiamento e comercialização autônoma nas terras indígenas. Sônia Aparecida Zoakamaero, administradora da Coopihanama, destaca o protagonismo conquistado pelos povos originários. “Essa licença foi uma conquista muito grande. É a primeira licença operacional no Brasil e no mundo. Nossa meta agora é criar o selo de produção indígena Paresi, com produtos de valor agregado, como a soja preta, e exportar um alimento natural e saudável para o mundo”.
Zunizakae esclarece os limites e alcances da autorização do Ibama. A licença não permite transgênicos, arrendamentos de terras ou expansão em novas áreas. “Essa licença ela só vem a formalizar ainda mais essa nossa atividade, e essa licença é mais um passo para acessarmos o Plano Safra, mas tem que deixar bem claro: essa licença é para nós plantar nessas áreas que estão abertas, 19.750 hectares na terra indígena Paresi, Nambikwara e Manoki. A licença não nos autoriza a plantar transgênico, não autoriza arrendar terra, não autoriza ampliar novas áreas”, enfatiza.
Crescimento populacional e preservação cultural
O projeto iniciou há 22 anos quando a população Paresi contabilizava pouco mais de 1,2 mil pessoas. Hoje ultrapassam 2,9 mil indígenas nas terras demarcadas. Zunizakae aponta os benefícios socioeconômicos e desafios da continuidade. “Foi um projeto difícil de se fazer, caro, mas quando você gera renda e trabalho, você melhora a vida da população. Trouxe benefícios para nós e a gente precisa consolidar a preservação dos nossos territórios e da nossa cultura, mas ao mesmo tempo garantir a permanência da nossa população com dignidade”, afirma.
Nova geração une tradição com tecnologia
Thiago Barcelos Zokezomaikae, estudante do oitavo semestre de agronomia, representa o futuro da agricultura indígena. Crescido entre as lavouras familiares, ele incorpora conhecimento técnico à herança ancestral. “Já vem desde a época do meu avó, passou para o meu pai e, se Deus quiser, vai passar para os meus filhos. Não é da nossa cultura a agricultura em grande escala, mas com esse solo abençoado e fértil, a gente aprendeu buscando conhecimento e tecnologia para se desenvolver cada vez mais. É da onde vem o nosso sustento, para a nossa família e para todas as outras famílias do território”, diz o estudante.
Para Zunizakae, ver jovens assumindo responsabilidades comprova o sucesso do empreendimento comunitário. A transferência de conhecimento para futuras gerações garante sustentabilidade do projeto indígena.
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