Da Redação
A homologação de novas áreas indígenas em Mato Grosso coloca em risco empregos e receitas de produtores na região de Brasnorte. Agricultores e trabalhadores enfrentam apreensão quanto ao futuro de propriedades ocupadas há décadas. A atividade econômica local movimenta milhões de reais anuamente com centenas de postos diretos. Famílias estabelecidas há gerações vivem incerteza sobre seu destino.
O produtor Valdir Pedro Orso possui licença do Ibama desde 1983. Sua fazenda foi construída ao longo de toda uma vida de trabalho. “Todo dinheiro que me der é pouco”, desabafa ele sobre a situação. Ele compara o cenário a um processo de luto profundo.
Propriedades com décadas de consolidação enfrentam desalojamento iminente
Proprietários em Brasnorte relatam histórias de patrimônio e investimento ameaçados pela homologação. Valdir Orso possui 2.950 hectares em Sistema de Integração Lavoura-Pecuária. Construiu 50 quilômetros de cerca e plantou árvores há 44 anos. Agora teme perder tudo sem oportunidade de defesa adequada.
Flávio Giacomet adquiriu sua área com documentação regular e mantinha manejo florestal sustentável. Empregava aproximadamente 30 funcionários em suas operações. Uma notificação do Ibama em 2004 suspendeu suas atividades permanentemente. Desde então jamais conseguiu retomar o trabalho realizado.
Impacto econômico estimado ultrapassa R$ 80 milhões anuais na região afetada
A ampliação da Terra Indígena Manoki em Brasnorte causará impacto econômico significativo. A área em expansão ultrapassa 250 mil hectares de território. Dentro dessa região existem 871 hectares de soja e 2,4 mil hectares de milho. O rebanho bovino soma mais de 44 mil cabeças.
As atividades agropecuárias movimentam mais de R$ 80 milhões anualmente e garantem 242 empregos diretos. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima impacto maior nas homologações. Segundo a instituição, o Valor Bruto da Produção pode sofrer redução de R$ 170,58 milhões. A medida eliminaria 498 postos de trabalho na região.
Insegurança jurídica provoca angústia entre trabalhadores e famílias rurais
A incerteza atinge desde grandes produtores até pequenas famílias assentadas na região. Leonardo Silva, presidente da Associação dos Produtores do Vale do Rio do Sangue, alerta para desamparo generalizado. Aproximadamente 30 famílias do Assentamento Banco da Terra enfrentam risco de deslocamento. Muitas ocupam a região há mais de 40 anos com títulos emitidos pelo estado.
O vaqueiro José Sidelor Ramos Roselim trabalha há mais de 30 anos na localidade. Sua renda depende diretamente das fazendas agora ameaçadas pela homologação. “Se não fosse pelos produtores nós não estaríamos aqui”, declara o trabalhador.
Homologação ocorre em paralelo ao julgamento do Marco Temporal no STF
A homologação das terras acontece simultaneamente ao debate nacional sobre o Marco Temporal. O vereador de Brasnorte, Norberto Junior, critica a decisão da administração federal. “Essa homologação por decisão monocrática vem contra fazer valer a lei”, ressalta. Para lideranças locais, o ato desconsidera direitos de propriedade garantidos constitucionalmente.
Além da Terra Indígena Manoki, outras áreas também foram homologadas recentemente. O cenário coloca direitos constitucionais, segurança jurídica e sobrevivência econômica regional em confronto direto.
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