Da Redação
A produção industrial encolheu 0,6% em agosto na comparação mensal com julho. O resultado ficou abaixo das expectativas do mercado e acende preocupação sobre o PIB do terceiro trimestre.
Economistas já previam estagnação de 0% para o período. Agora temem contração negativa devido à queda disseminada em diversos setores industriais, reflexo dos juros altos e aumento da inadimplência.
Entre as 25 classes de atividade analisadas pelo IBGE, 16 registraram retração. Todas as quatro grandes categorias encolheram, com indústria de transformação e extrativa caindo 0,7% cada. Na comparação anual, a indústria recuou 1,2%.
Desempenho por categoria econômica
| Categoria Econômica | Ago-Jul 2026 (%) | Ago 2026 vs Ago 2025 (%) | Jan-Ago 2026 (%) | 12 Meses (%) |
|---|---|---|---|---|
| Bens de Capital | -0,6 | -4,1 | -5,3 | -5,0 |
| Bens Intermediários | -0,2 | 0,1 | 1,6 | 1,1 |
| Bens de Consumo | -1,5 | -3,4 | 0,3 | 0,2 |
| Bens Duráveis | -1,0 | 2,8 | 2,1 | 0,8 |
| Bens Semiduráveis e Não Duráveis | -1,7 | -4,5 | 0,0 | 0,1 |
| Indústria Geral | -0,6 | -1,2 | 0,8 | 0,6 |
Série com ajuste sazonal. Fonte: IBGE
Economistas revisam projeções para PIB do terceiro trimestre
O resultado da Pesquisa Industrial Mensal levou especialistas a revisar estimativas para o PIB trimestral. Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, confirmou que o desempenho ficou abaixo da expectativa de alta de 0,1%.
“Os dados de produção industrial em agosto reforçam o enfraquecimento da atividade econômica em nosso cenário”, avalia Margato. A XP revisou seu rastreamento do PIB para contração de 0,1% ante ao segundo trimestre.
O Itaú destacou que o resultado reduz o impulso estatístico acumulado para o trimestre. Isso “aumenta a probabilidade de contração da produção industrial” na comparação trimestral e “reforça riscos de baixa para a estimativa de acompanhamento do PIB”.
Leonardo Costa, economista do ASA, mantém projeção de crescimento de 0,2% para o período. Contudo, adverte que “o balanço de riscos aponta para cenário de baixa” pela perda de tração econômica.
Antônio Ricciardi, do Banco Daycoval, confirma que a desaceleração deve prosseguir durante o terceiro e quarto trimestres. Os efeitos dos estímulos governamentais do início do ano já se dissiparam completamente.
Investimento produtivo desaba com juros elevados
Bens de Capital caíram 0,6% no mês e 4,1% na comparação anual, acumulando cinco quedas consecutivas. O indicador revela baixo investimento produtivo e reduzidas compras de máquinas e equipamentos.
“A queda mensal é negativa, mas bens de capital é o termômetro real do investimento produtivo”, afirma André Matos, CEO da MA7 Capital. “Máquinas não fabricadas hoje são produtividade que não existirá em três anos”, adverte.
A política monetária restritiva sustenta esse recuo. Com juros reais altos, o crédito caro reduz significativamente o apetite das empresas por risco e expansão de capacidade.
Breno Grou, CEO da Sinter Futura, observa o impacto primeiro nos pedidos. Clientes colocam lotes menores, fazem reposições mais frequentes e demonstram maior cautela nas decisões.
Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra, estima que se a situação persistir em 2027, entre R$ 15 bilhões e R$ 25 bilhões em investimentos industriais podem ser adiados indefinidamente.
“O efeito seria significativo porque adia expansão de capacidade, modernização de plantas e ganhos de produtividade”, explica. “Isso tornará a recuperação produtiva mais lenta e custosa”.
Inflação nos serviços limita cortes na Selic
Embora demanda mais fraca reduza espaço para repasse de preços em bens industriais, esse alívio não é suficiente. Especialistas apontam que inflação agregada permanece pressiona pela inflação em serviços.
Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, destaca que o mercado de trabalho permanece aquecido. Isso sustenta o consumo e limita o ritmo de flexibilização monetária.
“Demanda fraca na indústria não resolve inflação de serviço, por isso esse dado sozinho não abre espaço para o Banco Central acelerar cortes”, afirma Matos da MA7 Capital.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, avalia que “apesar dos cortes recentes, a Selic continua em patamar elevado e deve seguir assim ainda por bastante tempo”.
Fatores externos também pressionam. Fábio Murad, da Wiser Asset, alerta que juros internacionais elevados ou maior aversão ao risco podem depreciar o real. Isso encareceria insumos e máquinas, anulando benefícios da demanda menor.
Fonte: InfoMoney
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