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Educação

Cotas raciais da Uerj completam 22 anos e transformam trajetórias de vida

Mais de 32 mil estudantes ingressaram pela política de cotas; egressos destacam mobilidade social, pedem revisão do critério de renda e menos burocracia

Por Pablo Publicados 7 de dezembro de 2025
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8 Min. de Leitura
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Cotas raciais da Uerj completam 22 anos e mudam trajetórias de vida
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Da Redação

Conteúdo
Uerj foi pioneira em cotas e discute nova fase da políticaHistórias de transformação e pertencimentoImpacto das cotas no acesso de pretos e pardos ao ensino superiorModelo de cotas da Uerj e críticas ao recorte de rendaDebate sobre o futuro da política de cotas na UerjEstrutura legal e permanência estudantil

O ex-estudante cotista Henrique Silveira resume o impacto da política de cotas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em sua vida com clareza: a cota transforma. Ela o tirou da condição de menino trabalhando com carroça para o cargo de subsecretário de Tecnologias Sociais da prefeitura do Rio.

Nascido em Imbariê, distrito pobre da Baixada Fluminense, Henrique reconhece a política de ação afirmativa da Uerj como fator central para sua mobilidade social. O sistema de cotas da universidade, pioneiro no país, completa mais de duas décadas e passará por revisão legislativa em 2028, quando vence a lei aprovada em 2018.

Uerj foi pioneira em cotas e discute nova fase da política

A instituição adotou, em 2003, um modelo de cotas sociais e raciais no vestibular, tornando-se referência no ensino superior brasileiro. Desde então, a política se consolidou e inspirou outras instituições educacionais. Atualmente, a universidade estuda uma nova fase das ações afirmativas com foco em conexão com egressos.

Na última semana de novembro, a reitoria reuniu ex-estudantes em encontro específico de egressos cotistas para ouvir quem passou pela política. Até o momento, o modelo de cotas da Uerj, que cruza recorte racial e renda, permitiu o ingresso de cerca de 32 mil estudantes.

Henrique, egresso do curso de geografia iniciado em 2006, participou do encontro e reafirmou que a política foi determinante. Ele ressaltou que sempre trabalhou ajudando o pai, mas tinha clareza da necessidade de estudar e abraçou a oportunidade de entrar na universidade com força.

Histórias de transformação e pertencimento

Na infância, Henrique trabalhava em uma carroça fazendo entrega de material de construção. Hoje, ele se vê como exemplo da transformação possível através da política de cotas no acesso ao ensino superior.

Outra história apresentada foi a da dentista Maiara Roque, que ingressou na Uerj em 2013 no curso de odontologia como cotista negra. Ela recordou o dia em que viu seu nome na lista de aprovados e os desafios iniciais enfrentados durante o curso.

Mesmo dez anos após a primeira turma de cotistas, Maiara enfrentou questionamentos sobre sua presença na universidade. “Depois que você entra, adquire um sentimento de pertencimento”, relatou. Pesquisas mostraram que não há diferença relevante de rendimento entre estudantes cotistas e não cotistas.

Impacto das cotas no acesso de pretos e pardos ao ensino superior

As ações afirmativas aceleraram a redução das desigualdades no acesso ao ensino superior. Segundo o IBGE, em 2022, 11,7% dos estudantes pretos e 12,3% dos pardos tinham nível superior. Os índices cresceram, mas representam menos da metade da taxa observada entre pessoas brancas, de 25,8%.

No caso de Maiara, o ingresso em um curso integral de odontologia só foi possível com apoio da mãe, cuidadora de idosos. A Uerj mudou sua visão de mundo e influenciou diretamente sua atuação profissional após trabalhar no sistema prisional e na rede básica de saúde.

A dentista montou consultório na Penha, bairro onde cresceu, e destaca a importância da representatividade. “Estou devolvendo para minha comunidade essa oportunidade”, afirmou, ressaltando que as pessoas se sentem à vontade com uma profissional que é negra e do bairro.

Modelo de cotas da Uerj e críticas ao recorte de renda

Na Uerj, a política para cotistas negros combina autodeclaração racial e critério socioeconômico, diferentemente das universidades federais. A renda familiar bruta per capita precisa ficar abaixo de R$ 2.277.

Com o passar dos anos, muitos egressos passaram a ver esse limite de renda como uma barreira significativa. O valor é considerado muito baixo, especialmente para candidatos a cursos de pós-graduação que já atuam profissionalmente e enfrentam desigualdades estruturais.

O historiador David Gomes, egresso de cursinho popular que ingressou na Uerj em 2011 pelo curso de história via cotas, avalia que a oportunidade significou outra perspectiva de vida. Morador do Complexo da Penha, ele reconhece que o estudo abriu caminhos diferentes dos de outras pessoas que cresceram em sua região.

David destaca que a oportunidade na universidade significou uma trajetória acadêmica e profissional que abriu outras possibilidades em sua vida e carreira.

Debate sobre o futuro da política de cotas na Uerj

Ativista de direitos humanos, David defende que a Uerj reveja o critério de renda, sobretudo na pós-graduação. Profissionais formados em direito, medicina ou como professores muitas vezes não se encaixam no teto atual de renda.

Ele reconhece que o debate na graduação é mais complexo, com propostas para ampliar o valor do corte ou considerar outros parâmetros como inscrição no Cadastro Único de Programas Sociais. O consenso entre egressos é que a discussão precisa se apoiar em dados concretos sobre impacto.

Ex-estudantes defendem a coleta, organização e divulgação de informações sobre a trajetória dos cotistas. A rede de ex-alunos que a Uerj começa a estruturar deve auxiliar nesse processo de levantamento de dados.

Henrique enfatizou que dados bem trabalhados ajudam a desenhar políticas públicas mais precisas e sugeriu reduzir a burocracia na comprovação do perfil socioeconômico. Ele também defendeu ampliar o apoio a pré-vestibulares populares, conhecendo esse universo de perto.

Como coordenador da organização da sociedade civil Casa Fluminense, Henrique ajudou a financiar uma rede de cursinhos na Baixada Fluminense. “O pré-vestibular foi o local em que tive clareza da minha condição de negro”, relatou, afirmando que no Brasil você se torna negro ao tomar consciência disso.

Estrutura legal e permanência estudantil

A política de ações afirmativas da Uerj está definida na Lei 8.121, de 2018. A norma reserva 20% das vagas dos cursos de graduação para cotas raciais, contemplando indígenas e quilombolas também.

Outros 20% das vagas destinam-se a estudantes que cursaram integralmente o ensino médio na rede pública. A legislação permite acumular bolsa-auxílio com outros benefícios como bolsa de iniciação científica, melhorando as condições de permanência estudantil.

Com a revisão da lei prevista para 2028, ex-cotistas e a Uerj defendem que decisões sobre o futuro da política considerem histórias concretas. A experiência acumulada mostra que as cotas abriram portas e mudaram significativamente o perfil de quem chega ao ensino superior brasileiro.


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Pablo 7 de dezembro de 2025
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