Da Redação
Exclusão de residentes na audiência pública
Moradores do bairro de Perus, em São Paulo, relatam terem sido excluídos da audiência consultiva sobre implantação de incinerador. A suspeita é recrutamento de pessoas de fora para desmontar a mobilização contrária ao projeto.
Projeto da empresa Loga em análise
O projeto, denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, pertence à Logística Ambiental São Paulo S.A. A empresa Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) analisa a documentação técnica apresentada.
Ônibus com pessoas não residentes no bairro
Conforme apurado, ônibus estacionaram no Centro Educacional Unificado (CEU) Perus no início da segunda-feira. Passageiros desconhecidos formaram filas antes dos moradores, lotando o espaço. Um deles confirmou ter recebido pagamento para participar.
A pessoa revelou trabalhar em grupos que formam público para programas de TV aberta há três anos. Um responsável orientava as reações que deveriam demonstrar durante a audiência.
Capacidade máxima atingida impede participação
O teatro do CEU alcançou ocupação máxima, deixando cerca de 500 moradores impedidos de entrar. Dois televisores foram instalados no saguão, mas muitos, inclusive crianças, aguardavam sob chuva.
Agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) faziam formação armada com escudos e gás de pimenta. A prefeitura negou uso de equipamentos de menor potencial ofensivo.
Lideranças indígenas conseguem participação limitada
Três representantes dos guarani mbya, da Terra Indígena do Jaraguá, conseguiram entrar após insistência. O distrito do Jaraguá, criado em 1948, mantém ligação com Perus.
Engenheiro questiona tecnologia do incinerador
Mario Bortoto, líder do movimento de resistência, afirma que a consulta à população é assegurada legalmente. Considera o incinerador ultrapassado e obsoleto em outros países do mundo.
Bortoto aponta preocupação com cinzas tóxicas liberadas e fluxo de caminhões na região. Critica falta de fiscalização da prefeitura sobre parametrização normal das emissões.
O químico argumenta que aprovação do projeto agravará saúde de população carente de atendimento adequado. Vincula problema de recursos humanos ao preconceito com a região periférica.
Consultora ambiental lamenta manipulação informativa
Thais Santos, química e consultora da WWF Brasil, acompanha resistência desde a adolescência. Seu doutorado em Bioenergia foi qualificação pensada para servir à comunidade.
Santos criticou a manipulação de informações na audiência, que deveria ser espaço democrático. Observou que horário coincide com expediente dos trabalhadores, dificultando participação.
Alternativa: Território de Interesse Cultural
Moradores e ativistas propõem Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera. Modelo valoriza relação com natureza e resistência política característica da região.
Iniciativa segue lógica de agência de turismo fundada localmente, afastando-se de práticas predatórias.
Histórico de empreendimentos na região
Perus carrega estigma pela Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, que ocultou corpos de perseguidos políticos durante ditadura iniciada em 1964. Proximidade com Hospital Psiquiátrico do Juquery agrava reputação.
Mapa da Desigualdade 2024 revela expectativa de vida de 62 anos no distrito. Região ocupa 5º lugar em cobertura vegetal e 6º em emissão de poluentes atmosféricos por área.
Bortoto presenciou pressões para aceitar aterro na Chácara Maria Trindade, no início dos anos 2000. Aterro Bandeirantes, inaugurado em 1979, recebeu 35 a 40 milhões de toneladas em 28 anos.
Cetesb garante análise de contribuições
Órgão ambiental confirmou que colocações da audiência serão incluídas no processo de licenciamento. Projeto encontra-se em fase de análise técnica conforme rito legal.
Loga nega oferecimento de vantagens
Empresa e prefeitura negaram qualquer oferta ou benefício a participantes. Afirmam que presença foi espontânea e respeitou ordem de chegada e capacidade do local.
Loga defende que UREs são instalações modernas, não confundidas com antigos incineradores das décadas 1970 e 1980. Afirma que funcionam em áreas residenciais em diversos países.
Projeto prevê capacidade de mil toneladas diárias, recuperando 64% do material e destinando 36% a aterro. Objetiva criar empregos e ampliar proteção ambiental no município.

