Arnold Puech d’Alissac, produtor francês e presidente da Organização Mundial dos Agricultores (WFO), criticou duramente o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE). Segundo ele, os agricultores franceses são usados como moeda de troca e correm risco de perder mercado para os produtos do Mercosul.
“O acordo é um grande problema para nós, porque somos a moeda de troca. Temos a impressão de que vamos perder uma parte do mercado”, afirmou d’Alissac durante o COP-30 Farmers’ Summit, evento realizado pela WFO e pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em Brasília.
Resistência dos agricultores franceses
A Federação Nacional dos Sindicatos de Exploração Agrícola da França (FNSEA), da qual d’Alissac é membro do Conselho Executivo, lidera protestos contra o acordo. No ano passado, a FNSEA protagonizou uma crise com o Grupo Carrefour, que se comprometeu a não vender carnes do Mercosul após pressão dos agricultores franceses.
Atualmente, a FNSEA mantém campanhas contra o acordo, incluindo manifestações e cartazes com a frase “Não ao Mercosul”. Os agricultores franceses são os mais resistentes ao tratado na Europa.
Concorrência desleal e custos de produção
D’Alissac destaca que o custo de produção na França é maior que no Brasil. Ele explica que o modelo brasileiro usa grandes confinamentos, enquanto a produção francesa é familiar e menor. Além disso, os agricultores brasileiros têm acesso a defensivos agrícolas proibidos na França, o que aumenta a competitividade deles.
“Quando jogamos futebol, temos que ter as mesmas chuteiras. Não temos direito a uma chuteira eletrônica mágica”, comparou o produtor, que também cultiva aves caipiras e gado de corte na Normandia.
Expectativas e salvaguardas no acordo
Apesar da expectativa do governo brasileiro de assinar o acordo em dezembro, durante a cúpula Mercosul-UE, d’Alissac afirma que os agricultores europeus continuam lutando contra o texto atual. “Eles são favoráveis a um acordo, mas não a este acordo. A discussão está parada há seis anos”, criticou.
Ele defende a inclusão de salvaguardas que permitam bloqueios comerciais unilaterais, como ocorre entre Reino Unido e UE. “Com o Mercosul, só podemos bloquear temporariamente o acordo nos primeiros seis anos, depois ele é aplicado integralmente. Parece ‘meio louco’ aceitarmos um acordo assim”, afirmou.
Distorções e equilíbrio comercial
D’Alissac aponta distorções, como impostos diferentes sobre insumos químicos, que prejudicam os agricultores europeus. Ele ressalta que os vinhos e queijos europeus entram no Mercosul sem barreiras, o que gera desequilíbrio.
“Quero que os agricultores europeus sejam felizes, mas não quero que os franceses sejam infelizes”, concluiu.

