*Da Redação*
O desgaste nas relações entre Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita fundamenta a decisão bombástica de Abu Dhabi abandonar a Opep. A rivalidade acumulada durante anos ganhou força com a guerra envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Na prática, o “irmão menor” decidiu não mais viver à sombra do “irmão mais velho”, segundo fontes consultadas. O anúncio ocorreu na terça-feira (28), marcando momento crítico para o cartel petrolífero internacional.
Reconfiguração Institucional em Pauta
Os Emirados estudam congelar sua cadeira na Liga Árabe, com sede no Cairo, e tomar medida similar na Organização para Cooperação Islâmica, baseada em Jeddah. O futuro da participação emiradense no Conselho de Cooperação do Golfo também permanece sob avaliação.
Abu Dhabi reafirmou nesta quarta-feira (29) seu compromisso com o bloco de seis países. Contudo, Anwar Gargash, assessor diplomático do presidente emiradense, afirmou que o CCG vive “o momento mais fraco da história”.
Um funcionário emiradense informou estar revisando a relevância de participação em organismos multilaterais. Por enquanto, nenhuma saída formal está sendo discutida, conforme declarou.
Motivações Econômicas e Políticas
Oficialmente, a saída foi apresentada como decisão econômica focando necessidades futuras de produção. Os Emirados conseguem produzir bem acima da cota atual estabelecida pelo cartel.
O governo emiradense não deseja mais “pedir benção” aos sauditas para utilizar capacidade adicional de produção. Com o Estreito de Ormuz fechado, a oferta global está tão restrita que preços não devem cair significativamente no curto prazo.
Em Abu Dhabi prevalece a leitura de que demanda global por petróleo cairá antes do esperado por Riad. Se o ciclo termina mais cedo, convém monetizar reservas rapidamente.
“Estamos construindo um modelo econômico diferente, exigindo novo alinhamento político e reconfiguração”, resumiu Nadim Koteich, consultor assessorando órgãos do governo emirático.
Tensões de Longa Data
O movimento do xeque Mohammed bin Zayed representa ponto culminante de tensão entre ele e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman. Os dois países vêm se desentendendo em crises envolvendo Líbia, Iêmen e Sudão.
Riad acusa Abu Dhabi de incentivar grupos separatistas. Os Emirados desconfiam do apoio saudita a grupos islamistas, segundo análises disponíveis.
Competição econômica também é explícita: Arábia Saudita quer transformar Riad em hub financeiro rivalizando com Dubai. Ambas são aliadas dos EUA com fundos soberanos superiores a US$ 1 trilhão.
Alinhamentos Regionais Emergentes
A saída emiradense tende consolidar dois blocos regionais em formação. Um eixo liderado pela Arábia Saudita inclui Egito, Paquistão e Turquia.
Outra configuração aproxima Emirados, Israel e Índia. Em Nova Délhi, autoridades interpretaram o movimento como gesto político de rebeldia com potencial de enfraquecer a “frente árabe”.
“Os Emirados não querem seguir ordem liderada pela Arábia Saudita nem pela Turquia”, afirmou Dania Thafer, diretora-executiva do Gulf International Forum. “O país se vê como potência intermediária, contrapeso aos demais”.
A Questão Iraniana como Catalisador
Emirados começaram desenhando seriamente sua saída da Opep por volta de novembro. A situação azedou com descompasso quanto resposta aos ataques de mísseis iranianos no contexto da guerra com EUA e Israel.
Abu Dhabi considerou participar diretamente de ataques contra o Irã e defendeu na ONU o uso da força para reabrir o Estreito de Ormuz. Os sauditas preferiram insistir em negociações diplomáticas e conversas discretas de bastidor.
“Há uma rachadura no Golfo”, disse Hasan Alhasan, pesquisador sênior de política para Oriente Médio no International Institute for Strategic Studies. “Os Emirados não contam com apoio pleno quando o assunto é enfrentar o Irã”.
Cooperação Militar e Inteligência
A aproximação emiradense com Israel em cooperação militar e inteligência pesa significativamente, conforme interlocutores. Muitos países árabes veem Israel como ator expansionista desestabilizador.
O Irã disparou mais mísseis e drones contra os Emirados do que contra qualquer outro Estado do Golfo. Isso elevou consideravelmente a irritação em Abu Dhabi com vizinhos regionais.
Em conversa recente com autoridades europeias, MBZ expressou frustração com resposta coletiva vizinha aos ataques. Apontou divisões internas do CCG, classificando o bloco como disfuncional e pretendendo reforçar cooperação com EUA e Israel.
Dimensão Econômica Favorável
Os Emirados diversificaram economia além do petróleo e operam com superávits fiscais. Isso proporciona fôlego para atravessar períodos de preço mais baixo.
O governo saudita fechou 2023 no vermelho e deve continuar com déficit por alguns anos. Isso ocorre a menos que fechamento prolongado de Ormuz empurre preços do petróleo ainda mais para cima.
Na visão de Koteich, a conta econômica para sair da Opep “fechava”, faltando apenas o “timing político” adequado.
Esse timing veio com guerra contra o Irã e impacto do fechamento de Ormuz sobre oferta global de energia. O petróleo retornou a patamares acima de US$ 100 o barril.
“Não vai ser algo que mude radicalmente o mercado — a oferta já está apertada”, afirmou Suhail Al Mazrouei, ministro de Energia dos Emirados, em entrevista sobre a saída da Opep.
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